Sérgio Malta: A importância da qualidade da energia para a indústria e os investimentos em rede

Planejamento de novas unidades industriais no Brasil passa pela infraestrutura, pois uma grande planta produtiva depende de condições especiais de atendimento – e é neste campo, entretanto, que as atenções precisam ser maiores

A economia do Brasil começou a apresentar sinais de melhora na atividade, puxado pelo aumento da produção industrial, entre outros fatores. O nível de utilização da capacidade industrial está próximo dos 80% de ocupação e já se percebe uma reversão na tendência de fechamento de vagas. Mas, além da retomada da atividade das indústrias já instaladas no país, deve-se olhar a reindustrialização e a expansão do atual parque produtor.

O planejamento de novas unidades industriais no Brasil, no entanto, passa pela infraestrutura, pois uma grande planta produtiva depende de condições especiais de atendimento: telecomunicações, logística, disponibilidade de água e energia – e é neste campo, entretanto, que as atenções precisam ser maiores.

Os planos de investimento das distribuidoras para melhora da qualidade dependem de aprovação pela Aneel, pois a remuneração desses aportes vem das tarifas pagas por todos os consumidores. A maior confiabilidade pode ser alcançada a partir de maior aplicação de recursos específicos e dedicados pelas distribuidoras, o que resulta em tarifas mais elevadas.

Também sabe-se que as empresas possuem metas de qualidade que são estabelecidas pela Aneel, cujo descumprimento resulta em penalidades. A regulação atual impede condições diferenciadas de qualidade e preço para consumidores de energia, por causa do princípio da isonomia.

Por este princípio, os custos de novas obras na rede de distribuição devem ser repartidos por todos os usuários do sistema. As distribuidoras, em outras palavras, não podem realizar investimentos específicos para oferecer uma energia mais confiável à uma indústria específica. Mas há espaços na regulação para que indústrias e distribuidoras possam firmar acordos para que determinadas melhorias possam beneficiar consumidores específicos sem que os respectivos ônus sejam repassados para os demais usuários da rede.

Diante disso, é evidente ressaltar quais são os planos do governo para a indústria e, em paralelo, quais são os
reais planos de investimento das indústrias para o país. O momento atual é ideal para o segmento industrial colocar em pauta seus planos de expansão, para que as distribuidoras tenham maior previsibilidade na elaboração de
novos projetos e possam concentrando melhor seus recursos financeiros, humanos e materiais. É natural, com isso, que o financiamento dessas redes e equipamentos sejam arcados pelos clientes beneficiados.

Neste aspecto, a Aneel pode dar um passo importante na retomada de uma política industrial expansionista, aperfeiçoando a regulação a fim de permitir investimentos direcionados na rede para a indústria, mediante a remuneração assumida por esses beneficiados.

Sabe-se que um sistema à prova de desligamentos é operacionalmente impossível e extremamente oneroso, mas
o Brasil é um país onde pequenos incidentes, de menos de três minutos (não capturados para os indicadores DEC e
FEC) são muito frequentes.

O Brasil é o nono maior consumidor de energia do mundo e a indústria é o maior consumidor brasileiro. Não
por acaso, o fornecimento de energia é um dos serviços que mais desafiam o parque industrial brasileiro. Falhas,
mesmo que momentâneas, provocam elevados prejuízos.

Em alguns ramos de atividade, como nos têxteis, siderúrgico e petroquímico, por exemplo, os reflexos econômicos da qualidade da energia são profundos. Nesses setores, uma interrupção elétrica de até 1 minuto pode ocasionar prejuízos importantes com a paralisação de máquina, equipamento, das atividades e operações.

Diante desse quadro, surgem perspectivas favoráveis no curto e médio prazo, ligadas às inovações tecnológicas. Tais drives abrem, por exemplo, a possibilidade de aferição do consumo de energia no interior das unidades produtivas em tempo real, o que tende gradativamente a permitir a melhoria do serviço e a criação de melhores sinais de preço.
Novas soluções, desde que remuneradas pelos reais beneficiários (as indústrias), abrem oportunidades para as distribuidoras e podem mitigar o que hoje é um entrave para a expansão e modernização tecnológica industrial.

A regulação deve avançar para permitir que a indústria de energia elétrica brasileira continue a contribuir ainda mais para o desenvolvimento industrial do país.

Sergio Malta é Diretor do Conselho Mundial de Energia, Presidente do Conselho de Energia da Firjan e Presidente do Sindicato Interestadual das Indústrias de Energia Elétrica (Sinergia)

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