Rafael Kelman, da PSR: Entrando no clima

É importante perceber que, para o Brasil, a batalha contra o aquecimento global é uma oportunidade para melhoramos o país, através de agendas positivas e racionais

Apesar do apoio mundial às metas de descarbonização no Acordo de Paris e recordes de investimentos em fontes limpas, a realidade é que, para cada elétron de um novo projeto renovável, dois elétrons são gerados em novos projetos fósseis. Como consequência, as emissões de gases de efeito estufa aumentaram após três anos estagnadas. A preocupação redobra com a informação do IPCC de que a rapidez do aumento da temperatura global é maior do que a prevista nos cenários mais pessimistas de pouco tempo atrás e aumenta com levantamentos recentes, que mostram um aumento de metano na atmosfera, o que aceleraria ainda mais o aumento da temperatura

Jogo perdido? Nem tanto. Evitaremos as severas consequências do aumento da temperatura somente se, de alguma forma, conseguirmos “ganhar tempo” para implementar a descarbonização. Como mostra o renomado pesquisador Vaclav Smil em suas apresentações e livros, as transições energéticas são diferentes das tecnológicas, pois requerem investimentos em infraestrutura física que levam dezenas de anos. Um exemplo é o CCS, que extrai o CO2 na saída das térmicas. Smil mostra que, se fosse instalado em metade das usinas a carvão, mais dutos seriam necessários para transportar o CO2 do que todos os oleodutos do mundo.

Mas como conseguir estas décadas se o prazo está se esgotando? É neste ponto que surgem as discussões sobre a Geoengenharia (GE), que consiste em ações diretas sobre a temperatura, e não sobre o controle das emissões. A GE se inspirou na erupção do vulcão Pinatubo, nas Filipinas (as partículas das cinzas expelidas refletiram parte da radiação solar, baixando a temperatura global em 0,5°C nos meses seguintes). A tecnologia para replicar o processo, lançando partículas de aviões, foi bastante estudada e custa pouco. Outra possibilidade é espalhar ferro sobre oceanos para aumentar a produção de algas que, ao morrerem, levariam ao leito – de forma estável – o carbono absorvido em vida.

Nesta altura, o leitor pode se perguntar se estas ideias são levadas a sério. A resposta é sim. Diversas instituições científicas, como o próprio IPCC, estudam a GE. Poderia, então, fazer a pergunta inversa: por que não começar já com a GE?

O primeiro obstáculo são as incertezas sobre o impacto da redução da temperatura na dinâmica da atmosfera. O que garante que o pêndulo não irá longe demais na direção oposta à atual? Por exemplo, o que pode acontecer com as monções, tão importantes para a Índia; ou com os “rios aéreos” que se formam na floresta Amazônica e precipitam em São Paulo? O segundo é governança. Qualquer governo, ou mesmo indivíduos bilionários, poderia iniciar o processo. O problema é que, para um país, a GE pode evitar a desertificação e, para outro, eliminar as vitais monções. O terceiro é que muitas organizações temem que a GE seja vista como uma “bala de prata” e, com isto, os esforços para descarbonização diminuam. Apesar de seus proponentes argumentarem que a tecnologia é uma “aspirina” (ganhar tempo até que medidas estruturais de descarbonização sejam feitas), os oponentes desconfiam – com razão – que as pessoas podem perder o sentido de urgência e importância do problema.

Será importante aprofundar a compreensão sobre as possibilidades de emprego da GE, ainda que a torcida seja para não ter que usá-la. Será preciso ainda sensibilizar a opinião pública sobre a questão climática para acelerar e aprofundar as medidas necessárias.

Finalmente, é importante perceber que, para o Brasil, a batalha contra o aquecimento global é uma oportunidade para melhoramos o país, através de agendas positivas e racionais. Por exemplo: (1) reduzir desmatamentos com baixo retorno econômico, sobretudo os irregulares; (2) eletrificar o transporte público, aproveitando que a eletricidade aqui é renovável (também diminui o consumo do diesel, melhora a qualidade do ar e experiência de viagem); (3) investir em modais de transporte econômicos e menos poluentes, como hidrovias e ferrovias; (4) atuar de forma estratégica sobre o nexo água x alimentos x energia; (5) aumentar continuamente as eficiências mínimas de vários equipamentos.

Rafael Kelman é diretor da PSR.

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