“Se quisermos descarbonizar a energia global, energias renováveis ​​devem representar dois terços da energia até 2050”

Em entrevista exclusiva, o diretor-geral da Irena, Adnan Z. Amin, falou sobre investimentos necessários para controlar emissões, velocidade do incremento das energias renováveis e posição do Brasil no tabuleiro internacional de mudanças climáticas

Com o provável esgotamento das reservas mundiais de combustíveis fósseis, as energias renováveis ​​ganham cada vez mais protagonismo no cenário mundial. A transição da matriz energética representa um dos grandes desafios mundiais deste século para atender às metas do Acordo Climático de Paris e limitar a elevação da temperatura global a dois graus.

Essa é uma das constatações da Agência Internacional de Energia Renovável (Irena, na sigla em inglês) apresentada na última edição da previsão de energia renovável em longo prazo. Intitulado Global Energy Transformation: um roteiro para 2050, o documento foi lançado na 4ª edição do Berlin Energy Transition Dialogue, na Alemanha, e trata da velocidade da transição energética global para uma matriz mais limpa e renovável.

De acordo com o relatório, a energia renovável deve aumentar em pelo menos seis vezes para atender às metas do Acordo Climático de Paris e limitar a elevação da temperatura global a dois graus. O investimento em tecnologias de baixo carbono precisa crescer em torno de 30%, para US$ 120 trilhões, para permitir a transição energética para uma matriz limpa.

O diretor-geral da Agência, Adnan Z. Amin, conversou com exclusividade com a Brasil Energia sobre a adesão do Brasil à Irena, os investimentos em energias renováveis no mundo e a transição para uma matriz mais limpa e descentralizada. “Estamos felizes de o Brasil se juntar ao Irena […] Será um membro importante da organização em termos de colaboração internacional”, avalia.

O executivo reforça ganhos além do ambiental, a economia e o bem-estar global cresceriam, incluindo benefícios de saúde pela redução da poluição atmosférica.

“A transformação não apenas apoiará objetivos climáticos, apoiará resultados sociais e econômicos positivos em todo o mundo, tirará milhões da pobreza energética, aumentará a independência energética e estimulará o crescimento sustentável do emprego”. Confira a entrevista os principais pontos:

O Brasil recentemente aderiu ao Irena. Gostaria que o senhor comentasse isso.

Estamos felizes de o Brasil se juntar à Irena. Essa é uma decisão histórica que temos que comemorar. O Brasil é um dos líderes globais de energia renovável, têm um dos mais robustos sistemas de segurança no mundo na área de eletricidade, é uma grande potência em hidroeletricidade, além do grande potencial de energia eólica e solar. Em especial, na área de bioenergia há muitas empresas que atuam nesse segmento e que podem trazer ao Brasil benefícios globais do Acordo Climático de Paris.

Será um membro importante da organização em termos de colaboração internacional, compartilhando as suas experiências, participando das decisões globais e se movendo constantemente para o futuro.

O Brasil é referência em energias renováveis. É líder em hidroeletricidade, mas desperdiça o favorável potencial solar disponível. Como solucionar isso?

No mundo inteiro existe uma oportunidade para aumentar o investimento em tecnologias de baixo carbono e mudar o paradigma do desenvolvimento. Fazer essa transição para uma matriz mais limpa e menos centralizada é responsabilidade que o planeta deve aproveitar adotando políticas fortes, mobilizando capital e impulsionando a inovação em todo o sistema energético.

Os países precisam entender melhor a natureza da paisagem geopolítica em evolução, a fim de garantir prosperidade e paz. A transformação não apenas apoiará objetivos climáticos, apoiará resultados sociais e econômicos positivos em todo o mundo, tirará milhões da pobreza energética, aumentará a independência energética e estimulará o crescimento sustentável do emprego.

Assim com o carvão moveu o mundo no século 19, o petróleo foi a principal fonte no século 20. Acredita que esse é o século das energias renováveis?

Energia renovável é a energia do futuro. A mudança para a energia renovável está provando ser uma das tendências mais positivamente transformadoras de nossa era. As energias renováveis oferecem um caminho econômico para a redução da pobreza, maior acesso à energia e crescimento econômico, reduzindo as emissões relacionadas à energia.

A transição para uma matriz mais limpa e renovável passa por custos da energia. Os preços têm caído na velocidade que precisamos para atender as metas do Acordo de Paris?

O custo adicional de transição energética de longo prazo abrangente representaria nosso cálculo para 1,7 trilhão de dólares anualmente até 2050. No entanto, apenas ganhos em saúde humana e baixas emissões de CO2 poderiam gerar uma economia de US$ 6 trilhões de dólares por ano.

Há exemplos no todo o mundo de como reduzir custos de energia, o Brasil tem muita experiência nisso. Em menos de uma década as renováveis ​​passaram dos bastidores para o estágio central do cenário global de energia, em grande parte graças a estruturas de políticas de suporte e inovação tecnológica e custos rapidamente decrescentes.

Mas segundo a Irena, os planos dos governos estão aquém das necessidades de redução de emissões. Qual o cenário futuro nesse contexto?

Se quisermos descarbonizar a energia global e evitar os impactos mais severos da mudança climática, as energias renováveis ​​devem representar pelo menos dois terços da energia total até 2050. Para que isso aconteça, as energias renováveis ​​teriam que ser ampliadas seis vezes mais rápido do que nos últimos anos.

De acordo com nossos estudos, a energia renovável e a eficiência energética são a combinação para o caminho mais econômico para alcançar 90% das reduções de emissões necessárias para permanecer abaixo dos objetivos de mudança de 2º do Acordo de Paris.

Sem esse aumento na implantação de energias renováveis, os combustíveis fósseis como petróleo, gás natural e carvão continuarão a dominar o mix energético global até 2050.

E as energias renováveis têm crescido de maneira significativa?

Somente em 2017, tivemos um recorde de 167 GW de capacidade de energia renovável que foram adicionados globalmente, atingindo 2.179 GW em todo o mundo. O sexto ano consecutivo em que a capacidade de geração de energia das fontes renováveis ​​ultrapassou as fontes convencionais.

Em 2020, esperamos que todas as tecnologias na área de energias renováveis ​sejam competitivas em termos de custos com os combustíveis fósseis na maior parte do mundo.

Onde o senhor destacaria os principais avanços?

No início deste ano, a Alemanha cobriu cerca de 100% desse uso de eletricidade com renováveis. No ano passado, o Reino Unido, país que teve sua revolução industrial baseada em carvão, passou um dia inteiro sem carvão e boa parte dessa eletricidade foi produzida pela energia eólica e solar. Em 2017, a China adicionou 53 GW de nova capacidade solar, dobrando sua capacidade existente.

Até mesmo os maiores países produtores de petróleo estão tomando medidas ousadas para ampliar as energias renováveis. Arábia Saudita assinou um acordo para 200 GW de energia solar até 2030. Mesmo aqueles países cujas economias são em grande parte dependentes do petróleo, vêem um papel fundamental para as energias renováveis ​​e para o futuro da transição energética.

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