O multipapel dos fornecedores na indústria brasileira de petróleo

É preciso mapear a dinâmica econômica e tecnológica do segmento e alimentar os formuladores das políticas aplicadas ao setor

Por Telmo Ghiorzi*

Os fornecedores da indústria de petróleo, por meio de sua interação e coevolução com as petroleiras, definem a dinâmica da indústria, desenvolvem tecnologias que aumentam a produtividade, atendem a demandas regulatórias e são também beneficiários do crescimento do setor.

Esse multipapel dos fornecedores é também observado no Brasil. Contudo, as políticas públicas aplicadas no país parecem não refletir sua importância, inclusive por falta de conhecimento. É preciso ampliar o conhecimento sobre o segmento proporcionalmente à sua relevância, para alimentar os formuladores de políticas com informações precisas e atualizadas.

São os equipamentos e serviços realizados pelos fornecedores que permitiram, para citar apenas o exemplo do pré-sal, superar a marca de 1,8 milhão de barris por dia – mais que 57% da produção nacional – em pouco mais de dez anos. São barcos, equipamentos e serviços de sísmica; navios-sonda e respectivos serviços e produtos para perfuração de poços; equipamentos e serviços para instalação da infraestrutura submarina; plataformas de produção e equipamentos e serviços de construção e manutenção. Tudo isso concebido, construído e operado pelos fornecedores, em cooperação com a Petrobras e outras petroleiras.

A estatal brasileira responde hoje por pouco mais de 93% da produção de petróleo no país e conta com mais de 63 mil funcionários. Assumindo proporção linear entre produção e empregados, o número total de empregados por petroleiras deve ser próximo de 70 mil. O número total de empregados pelos fornecedores diretos e indiretos está entre 400 mil e 800 mil, segundo estimativas do “Caderno ABESPetro” (2017), com cerca 94% de brasileiros.

Essa e outras publicações, como a “Agenda de Competitividade da Cadeia Produtiva de Óleo e Gás”, lançada pela ONIP em 2010, são ricas contribuições para compreender o setor. Mas há outras perguntas igualmente relevantes que requerem respostas precisas e constantemente atualizadas. Qual é seu real peso na economia do país? Quanto o setor exporta, importa e investe? Quais são suas vocações, competências e fragilidades?

O foco nas petroleiras faz com que os efeitos sobre os fornecedores sejam secundários ou, no linguajar dos economistas, apenas externalidades. Isso se verifica nas políticas vigentes relativas a conteúdo local, Repetro, pesquisa, desenvolvimento e inovação, procedimentos de compras utilizados pela Petrobras, entre outras.

A política de conteúdo local, por exemplo, apesar de controversa, apresenta características de externalidade positiva. Embora a exigência atual seja de 25%, durante quase duas décadas foi de 65%. Isso está em linha com estratégias preconizadas por diversas pesquisas sobre a dualidade proteção versus abertura. Um notável exemplo** dessas pesquisas sustenta a estratégia denominada “in-out-in again”. Em resumo, para indústrias nascentes, deve-se entrar nas cadeias globais de valor para adquirir conhecimento, sair delas e distanciar-se para construir suas próprias competências e voltar a elas após ganhar robustez. Aparentemente sem intencionalidade, o Brasil seguiu essa trajetória. O período de maior proteção proporcionou tempo e condições para os fornecedores locais desenvolverem as competências tecnológicas necessárias à competição internacional. O setor está, portanto, pronto para a etapa “in again”, que está começando.

Contudo, as competências desenvolvidas no período de proteção não estão explícitas e nem são facilmente acionáveis. Mudanças pontuais nas políticas públicas vigentes podem ser indutoras da explicitação e uso efetivo dessas competências. É preciso mapear em detalhes a dinâmica econômica e tecnológica do segmento e alimentar os formuladores das políticas aplicadas ao setor, para que estes possam implantar mudanças focadas nos fornecedores. Mudanças essas que podem pavimentar um futuro altamente promissor para os fornecedores e para o próprio setor de óleo e gás.

* Doutor em políticas públicas e engenheiro de petróleo

** Lee, K., Szapiro, M., Mao, Z. (2018) From Global Value Chains to Innovation Systems for Local Value Chains and Knowledge Creation. The European Journal of Development Research, 30, pp. 424-441.

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