Wagner Victer: Engenharia não se faz sem engenharia própria

A perda de uma expertise própria por parte das organizações criando a progressiva cultura de que tudo pode ser terceirizado é um movimento extremamente preocupante

Recentemente assisti a uma entrevista de uma jovem engenheira falando sobre o acidente na barragem de Brumadinho e teceu uma frase muito interessante e que merece reflexão: “Papel não segura barragem!”.

Olhando para trás, em cada um dos 35 anos da minha carreira de engenheiro, participando de dezenas de grandes projetos, algumas constatações têm me preocupado diante do cenário atual onde um conjunto de catástrofes, que deveriam não acontecer, tem sido recorrente, sendo que algumas delas com características semelhantes.

Nas universidades, aprendemos que o Engenheiro é aquele profissional preparado para “resolver problemas” como qualquer pessoa, mas com um importante diferencial. Somos treinados para trazer soluções ótimas em termos de: qualidade, custo, prazo e também meio ambiente e em linha com as expectativas das partes interessadas do problema. Ou seja, uma solução que seja viável sob diversas variáveis.

A missão do Engenheiro é, por regra, entregar uma solução ótima e completa. Neste cenário simplificado, “Projetar” e “Executar” são atividades elementares e fundamentais que integram a busca dessa solução. Apesar de intimamente ligadas, essas atividades vêm, nos últimos tempos, de maneira progressiva, se distanciando até em grandes corporações, muitas vezes desenvolvidas sem a expertise devida.

Admite-se que o Engenheiro possa projetar algo que não pode ser construído e, para isso, cria-se um processo de análise de “constructabilidade”.

Admite-se que o Engenheiro possa projetar algo que não seja seguro e, para isso, cria-se um processo de análise de segurança, que, na maioria dos casos, deve também se estender ao ponto de vista ambiental.

Admite-se que o Engenheiro possa projetar algo que seja inviável economicamente e, para isso, cria-se um processo de análise de custo.

Admite-se que o Engenheiro possa projetar algo que não está em linha com o mercado e, para isso, cria-se um processo de comparação (peer review).

Obviamente, esses processos são necessários e importantes, mas eles ocorrem após a tradicional “emissão dos desenhos” para simplificar o entendimento desta análise conjuntural.

É, portanto, extremamente preocupante ver essa desintegração progressiva em grandes corporações das atividades de projetar, de produzir “bons desenhos”. É comum ultimamente ver projetos falharem grotescamente em uma ou mais dessas análises. Como isso pode acontecer?

Para se obter uma boa solução de Engenharia é preciso bem gerir o processo de executar os chamados “bons desenhos” e, portanto, ter pelo menos  pelo cliente final a expertise mínima própria para acompanhar essa função, em especial quando for uma atividade central de uma organização, particularmente nas grandes corporações como as que atuam no setor petróleo.

Essa análise simplista da função do Engenheiro é fundamental para se refletir quanto ao movimento que tem acontecido em diversos segmentos de nossa economia, especialmente em grandes empresas onde a função “engenharia” começou a ser, progressivamente, substituída meramente por “pareceres de terceira parte”, virando meros compromissos burocráticos de “compliance”. Muitas vezes os gestores estão mais afetos a busca incessante do aumento do “Ebitda”, descuidando de sistemas eficazes e próprias de consistência técnica que, na realidade, podem gerar grandes impactos futuros para a organização, não só em perdas financeiras, impactos ambientais e na própria imagem.

A perda de uma expertise própria por parte das organizações criando a progressiva cultura de que tudo pode ser terceirizado é um movimento extremamente preocupante, pois até para contratar e acompanhar aquilo que está sendo terceirizado, é fundamental ter um mínimo de expertise própria e ter o conhecimento da tecnologia de ponta, já que cada vez mais se tornam escassas as empresas de consultoria – não só no Brasil, mas no mundo – que conseguem consolidar a experiência em função das próprias exigências de mercado de reduzirem seus custos.

É claro que o setor de petróleo, com os elevados riscos econômicos, humanos e, em especial os ambientais, não requer a mesma verticalização que foi necessária no passado, quando muitas vezes cerca de 500 pessoas eram, por exemplo, envolvidas matricialmente nas atividades de projeto e construção de uma plataforma de petróleo. Porém, é fato que somente atestados de Sociedades Classificadoras/Certificadoras ou dos “Independent Engineer”, muitas vezes contratados sem a percepção técnica do corpo próprio daquilo que se contrata, e com isso reduzindo para uma supervisão direta de somente cinco pessoas, a função de engenharia é atendida com uma visão burocrática de “compliance”, como no caso da jovem engenheira que alertava que o “papel não poderia segurar as barragens”.

Portanto, a perda progressiva da capacitação técnica própria e até da acurácia mínima para sua eventual terceirização é um fenômeno extremamente preocupante, especialmente para as grandes organizações, em especial as que trabalham com uma tecnologia própria de ponta, já que essa não se compra ou contrata em prateleira.

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